segunda-feira, 8 de agosto de 2011

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FERNANDO BOTTURA



FERNANDO BOTTURA VERDADES

Consumo sustentável




O consumidor precisa saber se está pagando mais caro por causa da marca ou do processo produtivo diferenciado.

Avaliar a compra de um produto sustentável vai além da comparação pura de preços. Para ser verde, é preciso ter a certeza de estar investindo no futuro. Engajar-se à causa da sustentabilidade pode melhorar a saúde, preservar o meio ambiente e promover a distribuição justa de renda. O problema está em adaptar o consumo e o bolso. A diferença de preço entre os produtos tradicionais e os fabricantes de forma sustentável varia de 15 a 200%, segundo o instituto Realice, uma organização sem fins lucrativos que atua com projetos sociais. Entre as iniciativas da entidade, está a rede de vendas diretas Asta, criada para promover a distribuição de produtos sustentáveis nos segmentos de moda, decoração e utilidades domésticas. “AS revendedoras são as únicas intermediárias e a remuneração delas está explícita no catálogo”, afirma Alice Freitas, do Realice.

Para ela, existe um erro muito comum nos projetos: a preocupação ambiental virou um jargão comercial para atrair os consumidores das classes A e B, o que acabou por tornar os produtos sustentáveis inacessíveis para 99% dos brasileiros. “É mais caro por causa do meio de produção, que respeita o meio ambiente e as pessoas. Mas não pode ser inacessível” .Esta é a nova luta dos engajados: pulverizar o consumo consciente.

A pauta é extensa e passa pela acessibilidade e pela informação. Afinal, não adianta consumir alface orgânica se o produto utiliza mão de obra infantil ou sustenta uma malha de subempregos. Consumir, aliás, ganha uma nova conotação na vida verde, sendo necessário diferenciar a necessidade da vontade. O mais difícil em seguir os preceitos sustentáveis está na educação. Ser sustentável quer dizer buscar qualidade e não quantidade. Quando o assunto é produção ecológica, a remuneração é centrada no valor do trabalho e na herança que o modelo deixa. Portanto, a idéia é consumir menos.

Alguns modelos de negócios provam que a sustentabilidade tem futuro e o preço do produto sustentável pode chegar próximo do tradicional. A boa notícia vem do segmento de móveis. A cultura dos produtores mudou por causa de medidas adotadas pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama). O controle sobre o desmatamento, que ainda é um problema enfrentado pelo Brasil, aumentou e os grandes produtores de móveis tiveram de aprender a trabalhar com madeira de reflorestamento, ou MDF, como é conhecida. “O Ibama controla a procedência da madeira. Ficou mais prático comprar o MDF” avisa Fernando Bottura, diretor comercial da Riccó. Com o aumento da demanda pelo MDF, o preço se equiparou no mercado. “Se alguém cobrar mais com o argumento de que é madeira de reflorestamento, desconfie. Hoje é mais caro fazer móveis com madeira de lei”, afirma.

Preço x Benefício

É claro que essa equação vale em empresas estabelecidas no mercado formal, que cumprem a legislação ambiental e compram um grande volume. O problema do segmento de móveis ainda está na informalidade e na pulverização. “Empresas pequenas nem sempre sabem a procedência da madeira que compram. Vão pelo preço. Por isso, a participação do consumidor é importante”, comenta Bottura. Na dúvida, vale pedir o certificado.

Esperançoso sobre o avanço dos produtos sustentáveis, Bottura utiliza o próprio exemplo da cadeia moveleira, que ganhou muito dinheiro com base em desmatamento. “Hoje, enxergamos que é preciso preservar a floresta, replantar e dar sustentabilidade aos negócios. Somos um exemplo prático de que é possível mudar de atitude e manter os negócios lucrativos”, afirma.

Ele conta que a consciência ambiental está hoje entranhada na Riccó. Como investimento, ele trocou todo o telhado de sua fábrica por telhas ecológicas, pelas quais pagou 50% a mais. No seu caso, as novas telhas transparentes, reduziram o consumo de energia em 30%, tornaram o ambiente mais agradável e trouxeram um impacto positivo sobre a produtividade. “Pensar consciente é fazer a conta dos benefícios”, ensina.

Essa conta é o que move a indústria de telhados ecológicos. De acordo com a Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos, o custo inicial de coberturas ecológicas pode ser até 6,4 vezes maior do que os telhados convencionais, mas os benefícios ambientais e econômicos fazem o investimento valer a pena.

A diferença de preço está na necessidade de fazer uma revisão da estrutura dos telhados para propiciar a instalação de verdadeiros jardins na cobertura das casas. Os telhados ecológicos duram até duas vezes mais do que os tradicionais, uma vez que criam uma camada de proteção à radiação, isolando a estrutura dos efeitos de desgastes do sol. As plantas também propiciam o controle da temperatura, reduzindo os gastos de energia nos sistemas de ar condicionados. De acordo com um recente estudo canadense, divulgado pela Professional Roofing, a redução nos custos com a energia elétrica durante o verão pode chegar a 75%.

Segmento como o de móveis e construção tem de tudo para mudar a mentalidade em relação à sustentabilidade e educar o consumidor sobre o retorno do investimento. “A reutilização de material também é uma proposta desses segmentos. Nas construções de casas e móveis, é possível reciclar os resíduos”, comenta. Para complementar o segmento de construção, a indústria de móveis também aposta em projetos capazes de refletir mais luz, aproveitar espaços e gerar a economia de energia dentro de casa. Tudo é questão de pensar verde